quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Crônica

O que remiria minh’alma

                 Carlos Mendes

Os viventes no auriverde torrão alienaram o que não podiam deixar escapar.
Ao falar assim eu penso em um bem significante e com tanta clareza esquadrinho o seu alto valor, que “se não o vejo e o espírito o afigura”(1) conformar-me não posso com os olhares postos nas dedicações estranhas ao meu preferido interesse.
Aurifulgente pepita de quilate inexcedível é a honra. E que outra virtude a excederá?
Mais pareço um desvairado ao ver, inconformado, o que acontece com as preferências do meu povo brasileiro. Ele ama-se acima da estima de um patriota pela sua nação. Faz de ventos sua azenha; está sempre “no mundo da lua”, enlouquecido pela inútil fama pessoal, alienação e angústia girando como calidoscópio num visor de fama pessoal, que tirado do olho atento aos movimentos dos desprezíveis vidrinhos produzindo brilhos coloridos como se safira fossem, nada mais deixam à vista senão a realidade de um tubo enganador.
O que redimiria a minha alma, devolvendo-lhe as antigas querências, pois, como gado doméstico eu permaneci prazerosamente sob boas tutelas paternais? A vida boa familiar se apegava ao sentimento anunciado nas capas dos cadernos escolares onde pela primeira vez eu li: “a pátria é a família amplificada” (2), frase que testemunhava das amizades com os vizinhos sentados em bancos postos juntos às cercas fronteiriças das propriedades e para onde se achegavam os visinhos, às vezes da quadra inteira. Naqueles bancos comunais arranjados com alegria por quem à rua aparecia primeiro, sentavam-se visinhos doutores, pedreiros, motorneiros, funcionários públicos!...
Essa gente antiga devia agora ressurgir para levar-nos em passeata até os palácios dos poderosos, que poder receberam dos nossos votos. Dona Prazeres, certamente levaria consigo a sua vassoura de palha e a meteria nos fundilhos dos ladrões que roubam o erário e envilecem a nossa estremecida pátria.
Ela não ficaria apenas falando bonito, o quem nem sabia fazer. Mas a sua vassoura muitas vezes falou mais eloquentemente do que todos os famosos discursos dos empolados oradores de hoje, fustigando com ela os fundilhos dos filhos malandros, que com este expediente de mãe responsável aprenderam a ir no horário para as escolas e, mais tarde, para o trabalho de onde tiravam o sustento digno para suas próprias famílias.
Caminhar sobranceiramente é nosso dever, pois a gloria pessoal redunda no fastio de nós mesmos. E perto estamos de nos enojarmos de nós mesmos, pois há muitos com injustificável poder a humilhar-nos até a infamante condição de escravos.
Antes preferisse à fama passageira do assinar reportagens ocas, o caminhar nobremente junto a outros, tangidos como eu pelo ideal da entrega cega, olhos tapados para o promíscuo luxo da fama e do reconhecimento de valores individuais.
(1)Manuel Bandeira
(2) Rui Barbosa
  


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ARTIGO: ACORDA BRASIL

Vamos evitar que o Brasil assuma Cuba e Venezuela, ou não?!


Reflexões de um contra-revolucionário

Réquiem aos inocentes úteis
Carlos Mendes

Pequeno Dossiê
BRASIL
Anos de Chumbo
Segundo escreveu o amigo Walter, passando-me a matéria abaixo, que “circulou numa revista de pouca circulação”; uma ironia, com certeza, pois há um “lay-out” da Revista Abril e citações de publicações em jornais nacionais de grande circulação:
“Quando na sexta-feira 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva aprovou o Ato Institucional número 5, acabando com o que restava dos direitos civis e dando carta branca à repressão, muitos jovens ganharam o motivo que lhes faltava para pegar em armas. “A partir desse momento a luta armada se apresentou como uma alternativa razoável” afirma a historiadora Beatriz Kusbnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. “O golpe de 64 me despertou para a política. E o AI-5 me levou pra a luta armada”, resume o fotógrafo carioca Paulo Jabur, que entrou para o MR-8 em 1969.”
No Brasil formou-se um divisor de águas entre os ideais gramscistas e o da democratização do país, isto ante um desafinado contraponto revolucionário inspirado por “Sierra Maestra”, este, “acabando” por apaixonar os seguidores do psicopata Jânio Quadros e o seu vice, João Goulart.
Esse divisor, para mim, apresentou-se com clareza meridiana, pois há uma experiência pessoal que vivi entre 1955 a 59, que em 1998 ganhou algumas páginas no capítulo V de minha auto-biografia romanesca: “Bacia do Macuco”, capítulo que recebeu o título: “O quebra cabeça”. E esta experiência pode ser entendida como um “insight” igual ao que ocorre na experiência psicanalítica. Algo que, estando tão somente a nível inconsciente na mente, especuladora e sofredora enquanto não iluminada pelo fato inquietante que nela flutua, incognoscível, com seus contornos quase indefinidos querendo revelar-lhe a forma.
Esse penetrante, incitante e inquietante desafio eu passei para os leitores da autobiografia que escrevi (ainda disponível economicamente em caderno grampeado).
O insight trouxe-me grande ganho psicológico, pois me ajudou a compreender, creio que tão bem quanto o insigne Castelo Branco e seus aliados ideológicos, entre eles o grande mineiro e democrata Juscelino Kubitchek, onde nos levaria as inflamadas preferências de Jango, manipulador de elos nos discursos de líderes sindicalistas da classe trabalhista, todos, à época, inspirados por Sierra Maestra. Milhares, senão milhões de circulares entravam no Brasil principalmente pelos portos de Santos e do Rio, vendo-os eu, pessoalmente, serem distribuídos entre os petroleiros e petroquímicos, em Cubatão. Essas distribuições, e os discursos concorrentes para o mesmo fim: “Revolução Comunista” eram instrumentos insufladores distribuídos e discursados pelas agremiações sindicais surgidas em função dos poderosos nichos de trabalhadores especializados que os setores automobilístico e petrolífero exigiram nas décadas de 50 e 60.
Afirmo em função destes fatos históricos, que vivi pessoalmente entre uns poucos milhares de técnicos-químico-  operacionais especializados, tendo eu pertencido ao primeiro quadro dos que colocaram em funcionamento a Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, primeira a entrar em funcionamento no Brasil, em 1955.
 Afirmo também, que já existiam estratégias muito bem planejadas por líderes comunistas preparados para alinharem, à nível de confederações, a união desses novos e promissores setores da economia brasileira, como planejamento do golpe comunista-castrista no Brasil, a partir de Cubatão e capital do Rio.
Em Cubatão, coube-me proclamar, e liderar em 57/8, uma justíssima greve geral entre os petroquímicos, primeira centelha reativa do golpe de 64, afirmo-o com toda segurança.    
 Juntando-se a tudo isto, alinharam-se ainda militares das classes subalternas, que em 1964 encamparam os ideais daqueles novos líderes sindicais, fortalecendo, assim, a persuasão ao engajamento das forças políticas dos fautores da ideologia comunista no Brasil.
Mas os atores do romanesco Fidel, autor de um tema ultrapassado, que só o insano de “Sierra Maestra” quis continuar reapresentando, isto já às vésperas de a Rússia tirá-la de cena. Mas essa peça surrada, sem outro público para assisti-la senão os que lá em Cuba eram obrigados a exaltá-la apaixonadamente por Castro, tinha como expectadores alguns brasileiros bem medíocres como expectadores nesse palco burlesco chamado Brasil, e nós vimos nas décadas subseqüentes a de 64 a reapresentação dessa peça de mau-gosto, e surrada, ser repetida sob inspiração gramcista, a cuja representação juntou-se posteriormente o palhaço que o público do “circo Brasil” elegeu por duas vezes para presidir nosso país.
Duas décadas depois, a frustrada reivindicação de 64, ganhou palcos para representação do que então viraria uma retumbante “palhaçada”: Sindicatos de Classes Operárias que, em função do real desejo de seu “palhaço-mor”, jogou dezenas de milhares de seus adeptos nas piores periferias do Grande São Paulo! Perderam as lindas residências no ABC para cobrirem as perdas dos grandes salários, os quais foram conseguidos como massa de manobra entre o Lula e os capitães das empresas, que precisavam urgentemente fazer suas multinacionais entrarem na era do CQT.[1]
Mas o palhaço também era um patife, Ele negociou greves com os competentes diretores das multinacionais da Via Anchieta e de todo o Grande ABC.
A truta, que ambas as partes (empresários e pelego de ambição desmedida) ganhariam para dar ensejo à custosa dispensa de grande quantidade de mão-de-obra especializada para as empresas entrarem na era do CQT, que ofereceria às empresas elevadas performances de produtividade que poderia em breve tempo chegar a trezentas vezes mais e, ainda, uma fantástica diminuição nos gastos fixos relativos aos altos salários das dezenas de milhares de funcionários especializados demitidos, só na Volkswagen.
Ganhou o Lula, que embolsou considerável fortuna para si e párea o PT nas negociações das dispensas dos operários especializados. Ganharam as empresas, cujos capitães sorriam a larga com o formidável ganho do CQT[2] vendo os bobões aduladores dele, ufanoso “grande líder”, que aproveitava a ”nova era” para, outra vez, enriquecer e fortalecer-se politicamente, até ganhar seu primeiro pleito a Presidente da República brasileira.
Inaugurava-se a era do PT, com apresentações ao vivo por redes de televisão, explorando o ganho da popularidade que a Grande Mídia oferece.
Essa massa difusa, hipócrita e insensata que hoje dá ibope a quem interessará? O tão propalado “mensalão” é como “trocados” em função do que vocês: enganados e expoliados perderam e nos fazem perder.
Diríeis que ganhou o parque industrial, que enriqueceu-se, ensejando a riqueza nacional... Pois sim! Não vês, ó cego petista que o teu país continua essencialmente sendo sustentado por uma economia quase que essencialmente agrícola?
És cego para ver quem enriquece? Não sentes em tua própria pele (e na dos teus filhos) que tu e teus irmãos empobrecem sempre mais?
Não és capaz de ver que até mesmo os Estados Brasileiros do sul, que sempre sustentaram a nossa nação, empobrecem?
É burro, ou demônio como os teus líderes petistas?!...
Pusestes a batuta do nosso país nas mãos de um “cachaceiro”! Não tenho nada contra os viciados em cachaça, desde que não se metam a querer governar o que quer que seja. Se tu fores um cachaceiro, apesar de seres  “cara” com estudo, com honestidade me diz, estando tu embriagado: Podes dirigir se quer um carro? E o que me dizes: “Uma nação” com 200 milhões de habitantes?! Achas mesmo que foi o Lula o governo do teu país? Te digo, foram os malditos “mensaleiros”: o safado do Dirceu e outros da estirpe dele que governaram. Governaram inclusive o Lula!
Não és capaz de calcular o mal que fizeste a ti, a teus filhos, mulher ao te apaixonares por um político safado, que com oito anos de trabalho na Volks deixou o torno corta seu dedinho mindinho, pois a lei trabalhista lhe garantia aposentadoria integral por invalidez! Invalidez! Por um dedinho cortado!
Aos meus 82, começo a ser prejudicado, isto depois de uma longa carreira como empresário, que pagou impostos, aposentou a muitos, como eu, só que, como eu, estão vendo suas aposentadorias, ganhas por longos anos de trabalho (eu aposentei com mais de 40 anos de trabalho), não representarem quase nada em relação ao valor original
Quiseram, recentemente, trazer de volta ao palco as apresentações aterrorizadoras da peça comunista que inspira temor, quando tentaram montar a peça gramscista. Mas se ainda não vimos sua apresentação acabada, por outro lado continua sem ser conhecida a peça democrática, que tantos deleites libertários derramam sobre povos protegidos por esse sistema de governo ideal, se construído por povo e governo leais a seus preceitos.
Ligando eras políticas da década que se seguiu a partir de 1955, vimos os adolescentes daqui preparados ao engajamento na militância comunista. A pregação dos grandes líderes sindicais, devidamente catequizados por “Sierra Maestra”, infiltrou o discurso castrista como uma contra-cultura política nos costumes civis dos nossos jovens, incitando-os a uma contra revolução comunista, acintosa posição que, dez anos mais tarde  tentava impor-se contrariamente ao golpe militar de 64, que Sierra Maestra sabia, sim, ser mortal aos sonhos de expansão de sua frágil doutrina onde a esquerda - mais um ponto divergente da doutrina capitalista de Fulgêncio Batista do que uma noção sábia para a necessária reforma política do sistema -, certamente não totalmente recomendável ao nível de uma boa convivência democrática.
Assim, muitos dos nossos jovens se perderam para os ideais de liberdade ao se engajarem numa ideologia totalitária. Cruel paradoxo!...
Réquiem a estes inocentes úteis, que sem saída possível depois do engajamento, foram ceifados ainda jovens pelo confronto armado contra outra ideologia totalitária pós-castelista, a qual se justificava pela necessidade de um contraponto impositivo, que nada tinha a ver com a questão: Comunismo ou Democracia.
Carlos Mendes
Escritor e poeta; ex-colunista dos jornais “Correio do ABC(1996/97) e da seção cultural dos Sete Jornais de Bairro em Mauá(1997/98). No ano 2.000, escreveu a apresentação ao projeto “O Brasil e a Mídia”, que o MINC colocou na Galeria NO  TREE, em Berlim.    



[1] Você, petralha, não sabe o que é? Procura um mestre da FAAP que ele te conta! Não duvido que depois de saberes continues PTista! Tua paixão embota o teu entendimento, e o teu país vai pra m...
[2] CQT – Controle de Qualidade Total.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Crônica

A Revelação©
Carlos Mendes


    Lépido, ele subia os degraus da escada quando a perna vergou depois de uma fisgada no joelho. Achou que era um sintoma de artrite. “Mas artrite é doença de velho”, pensou discordando do auto-diagnóstico. Completou a escalada, entrou em casa e foi direto mirar-se no espelho do banheiro para confirmar a suspeita. “Hum... que artrite qual nada!”
    Passaram-se uns poucos anos de boa forma mental e física e ele esqueceu o incidente. Num belo dia acordou de madrugada, no final do filme da “Sessão da Madrugada”. Opa! já é três da madrugada. Não consegui ver todo o filme e a sessão da madrugada já está terminando. Onde é que vai a energia que me mantinha acordado às sextas? Levantou-se da poltrona e foi para o banheiro. Acendeu a luz e deu uma boa olhada no rosto. “Caramba! Não é que estás parecido com o teu velho pai na idade em que ele não agüentava mais passar das dez da noite?”, indagou da fisionomia refletida no espelho, convencendo-se que não entrara precocemente na terceira idade. Mas ficou desconfiado. Lembrou das fotografias que o genro tirara recentemente, quando da reunião familiar no último Natal.
 Pegou as fotos, levou-as para o banheiro. Ele vestia uma camiseta cavada, e na medida em que comparava-se, postado diante do espelho, a sua aparência em relação a cada uma das fotos, viu que numa delas aparecia o seu primeiro genro, reparando que ele  o já possuía algumas cãs. Depois descobriu a neta mais velha posando ao lado do marido.
Mirou-se no espelho e viu as pelancas caindo de seus braços. Era um velho olhando agora para os seus próprios olhos. Começou um diálogo com o espelho: “E por que não percebi isso antes?”. Então assumiu que aquela nova aparência resolvera-se aos poucos sobre ele, igual ao vai-e-vem da maré que apaga as inscrições sobre a areia molhada da praia: “Foram-se todos os vestígios da mocidade!”, concluiu finalmente e sorriu tentando ser cômico e zombador daquela imagem à sua frente a mover os lábios no falar as mesmas palavras. “Não olhavas para o teu próprio rabo quando comentavas sobre o envelhecimento dos ostros!...”  
Examinou novamente as fotografias do último Natal e depois encontrou outra, tirada há sessenta anos atrás, quando ele era então um garotinho como os dois netos mais novos que agora contemplava numa foto mais recente. Ela era colorida e ele comparou-a com uma outra em preto-e-branco, totalmente amarelada pelo tempo. Suspirou ao pensar que no futuro também nos seus netos desapareceriam os vestígios da meninice, depois os da mocidade, e, por último, da faze áurea da geratividade, que ocorre antes daquela velhice insolente a refletir-se no espelho. Largou as fotos e voltou a encarar, sisudo, sua imagem no espelho. Depois alargou um novo sorriso, agora carregado de paz e  voltando a falar com a imagem, disse-lhe: “Devias ter começado a contagem regressiva há vinte e sete anos atrás, quando começaste a demandar o céu onde Jesus foi preparou-te pousada eterna”. Sentiu sono ao gozar a paz desse reconhecimento e despedindo-se da imagem lhe disse: “É coroa!... Menos um dia para a partida!”.
Foi deitar-se e dormiu sorrindo o sono da eternidade.


©Carlos Mendes

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Três grandes expressões e uma única verdade

Da Poética à filosofia, e desta à Teologia Bíblica
                                                                       Carlos Mendes

Inclinação aflitiva tangeu o meu humor,
E como tormento sem razão aparente,
Surgiu das profundezas de minha alma,
Maligno, e também mui dolorido tumor,
Do inconsciente extirpado muito rente,
Ficando então em bem estar e muita calma

A pensar, zeloso, como entender isto?
Ponderando fato tão enigmático,
Saldei o encontro que me levou, então, a Cristo,
Fato inédito, que prostrou-me, estático,
Ao ouvir a voz de quem me disse isto:
“Tu és meu”, ouvi o dito entusiástico.

Dor respondendo à procura do bem-estar.
Prazer, sobrevindo ao desconforto da dor,
Como entender esses reversos afetivos?
Dos desejos prazerosos, o descoroçoar.
Da desilusão, o benefício do amor.
Da perda, os inesperados completivos

Emoção é choque brusco, inesperado,
Traduzindo afetividades tão estranhas
Quando chegam por nosso próprio desejar.
Melhor quando chegam do nosso Bem-Amado,
Senhor Onipotente, que sem barganhas,
Sabe bem o que convêm ao nosso Bem-estar! 



GLOSSÁRIO, Conf. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia André Lalande

AFETIVIDADE –              A. Característica dos fenômenos afetivos[1]
B. Conjunto desse fenômenos

1 AFETIVO Designa a característica genérica do prazera, dorb, e das emoçõesc chamadas freqüentemente como “estados afetivos”, “tendências”.

EMOÇÃO – Choque brusco, tantas vezes violento, intenso, com aumento ou parada dos movimentos: medo, cólera; o apaixonar-se.

a Alegria; satisfação; gozo.
         b Tormento moral ; aflição, remorso, arrependimento
      c Emoção significa, etimoloicamente, alguma coisa a mais do que movimento: é o movimento que faz alguma coisa sair do seu lugar, ou pelo menos do estado em que estava anteriomente.




[1]

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Conto e Memória

Santelo
Conto de: Carlos Mendes

    Personagens:
         Arbítrio, narrador e personagem da história.
         Castão, Moralista que vive fazendo sermões.
         Infausto, É o protagonista que vê desgraça em tudo.
         Pôla, personagem que interage como opositora ao Arbítrio, que a quer convencer sobre os bons arbítrios.
         Pureza e Trindade, personagens figurantes. Tímidos, eles interagem mais como ouvintes e espectadores; são agentes passivos que deixam conhecer os seus sentimentos íntimos pelo que pensam e pelas reações emotivas que transparecem nos seus gestos e expressões fisionômicas.
         Santelo é o personagem central da história. Pertence a memorialista de Arbítrio, seu discípulo, que tem do mestre ensinamentos para sustentar suas exortações. Os fatos ligados a este personagem Santelo[1] são reais, e o autor transformou-os em tecido literário romanesco escrito em linguagem poética constituída de frases e períodos escritos com palavras do mesmo grupo fonético, o que emprestou sonoridade à audição da obra, se declamada. O leitor também encontrará alguns ornamentos de linguagem que atenderam o propósito de contribuír com o quê poético da obra.

         Os feitos da história são de cunho realista por basearem-se na obra de um evangelista, donde o título Santelo, que ganhou. Esses feitos foram conhecidos pelo autor, que os viu realizados, ou ouviu-os por relatos extáticos, que soem acontecer quando um “pescador de homens” recebe o prêmio de levar um pecador ao arrependimento diante de Deus.

      



Em memória de:
Manuel e Hilda Mendes

“Meus pais, que me ensinaram a caminhar pelo “caminho estreito” que leva à Salvação Eterna”



Santelo


Quando Santelo se fixou por ali, logo todos o consideraram cheio de paixão pelas almas. Pôla, como era conhecida Paula pelo feito lingüístico do irmão caçula ao  balbuciar-lhe o nome pela primeira vez, chamou para si a atenção com o costumeiro e ruidoso muxoxo que fazia quando ouvia o que não a agradava.
       — Paixão é coisa que se tem pelo concreto – disse sacudindo as pernas curtas abaixo das saliências laterais das fartas nádegas, esparramadas pelo assento da cadeira embora premidas pela calça de fustão turquesa que trajava.
       Sentado na poltrona em frente à de Arbítrio, que sempre lhe fornecia a base dos pensamentos, e prior natural das questões colocadas para o grupo, Castão tinha a carranca fechada e olhos postos em Pôla, tola perante o seu parecer. Não ficou só na carranca. Foi prontamente falando:
       — Sem fé não se tem chance de conhecer os postulados da Palavra...
       Da discrição passou para o conselho:
       — Ó Pola, deixe a boa visão de Deus governar os teus zelos.
       — Gosto do vocativo dessa zanga do Castão – disse Infausto juntando-se à valorosa demanda. – Duro juízo vem!..., bradou valorizando o “vem” do vaticínio.
       — Os sermões do Santelo destinavam-se a pequenos peixes – balbuciou Pôla amuada.
       — Porque preferia trabalhar com os desvalidos?... És capaz de compreender o quanto procurava preparar-se para chegar a eles? – defendeu Arbítrio.
       — Qual a cultura desses pobres párias para que precisasse de preparo? – Póla continuava sarcástica.
       — Significação cheia de parcialidade. Pecado que pode conduzir-te ao subterrâneo dos falecidos! – proclamou Infausto.
       A volúvel zombaria de Pôla não justificava a fala fatídica de Infausto, julgou Arbítrio. Enquanto vivesse seria viável a sua salvação. 
       — Santelo zelava pela liberdade real
       — Real ou sonho sem sentido? – zunil a sibilante reação de Póla.
       Calando-se quanto ao rumo da conversa, Arbítrio governou o conselho com a razão do seu Rei.
       — Falsidades são todas as coisas que conhecemos; não são feitas do que parecem ser. Se te puseres a calcular a tua felicidade por elas, falharás! – pregou Castão.
       — E amor ardente não olha o aparente. O mundão é lindo, mas só tem presente.  Ele não terá mais amanhã quando findar – suave e lento Arbítrio ia falando.

       Pôla ficou calada e ele continuou tentando convencê-la da etérea existência da alma, objeto da paixão de Santelo.
       — Jovem baderneiro ganhava duvidosamente a vida. Santelo, vizinho dele, garantiu-lhe a vulgaridade do seu viver desbaratado. Vejam o jeito do jambeiro... – disse Arbítrio com voz de zéfiro. – ...Sua pequena tela se fechando para pegar esse peixe tão chué, pequeno, todo tisnado de tantos pecados.
       Fez pausa para pensar.
       Pôla botou as mãos nos bolsos da jaqueta vendo Castão boquiaberto e Infausto vangloriando-se da desdita do jovem vilão bem descrito por Arbítrio.
       — Transformou-se o mal menino?
       Castão perguntava e Pôla se chateava pelo feito. Ficavam calados os bons de ouvido. Um era o Trindade, chamado assim pela fé dos pais nas três pessoas do Todo Poderoso, ao se converterem. Do sexo feminino era quem se sentava próximo de Castão; se chamava Pureza e tinha procedimento condizente com o nome.
       — A bondade de Deus deu-lhe a vida e Santelo dedicou-se a guiá-lo na busca do galardão zenital – disse Arbítrio jubiloso.
       Infausto falou do trágico fim de Pôla, chamando-a de perdida contumaz caso ficasse titubeante perante o sacrifício de Cristo. 
       — Vê bem, Pôla: justiça deve governar a vida e Deus gosta da bondade – garantiu Castão.
       — Conta-se que Santelo, dia ainda cedo, com unção de talento procurava sem pejo jagunço violento. Achou-o desbotado, sem cor e sem fama debruçado num balcão tomando uma Brama. Justo em bar de ladrão entregando volantes, estendeu a sua mão ao violento vilão. Palavras vibrantes de misericórdia provocaram discórdia entre os meliantes. Ameaçou Santelo o vilão mais franzino vibrando um martelo. Outro, o Tomazino, punhos qual cutelo, defendeu o Santelo.
       Com zombaria no olhar relutante e laborando solapar o raciocínio, Pôla ruminou:
       — Pões contos da carochinha no argumento. No fundo tal situação não se sustenta.
       — Sem falsidade te falo. E conto fatos consumados pela pregação da fé em Cristo  perante tantos quantos creram.
       — Tens de outro um testemunho não duvidoso?
       Arbítrio girou o olhar e falou:
       — Lembro de um bom para contar.
       Pôla, mãos guardadas nos bolsos, verga-se devagar e engole a baba para não vazar da boca já disposta a balbuciar suas dúvidas.
       — Teu ceticismo transparece sem pronunciares palavra – falou Castão com semblante tristonho.
       — Ainda que talentoso o argumento, bem a voz calando, Pôla nem no amanhã se encontrará diante da senda da esperança – sentenciou Infausto.
       O taciturno Trindade e a sincera Pureza pareciam querer chorar. Suspiraram calando o pranto pronto para corromper sentimentos chocantes.
       Almas bondosas e desgostadas com a vetusta injustiça da vida debalde vivida.
       Parece que os feridos cuidados da paixão pelas almas sacudiram os sentimentos de Pôla, pensou Arbítrio se animando a contar-lhe a história.
— Certa vez Santelo conheceu um comerciante que se proclamava ateu. Materialista e bem de posses ele tinha certezas confusas, pois freqüentava sessões espíritas...
       — Materialista, mas não muito!
       Pôla manifestava anuência. Muitas noites e até em madrugadas manipulou seu gnomo.
       — O que o comerciante fazia? – perguntou Castão.
       — Tinha empresa de construção civil e sócio pouco fiel. Quando construía outro  salão  de  cultos para uma igreja conheceu o congregado Santelo e contou-lhe que o sócio o estava fraudando tanto que, fatalmente, perderia  a sua parte na sociedade. Se tal acontecesse, o mataria; nem mais nem menos, pois a sobrevivência da família dependia da firma.
       Pureza desgostou-se diante da ostentosa violência.
       Arbítrio demorou para continuar. Parou, tossiu, percebeu a comoção e prosseguiu:
       — O homem tinha necessidade de dizer-lhe tudo e esperava conhecer melhor conselho para se livrar do medo de “pirar”. Contou todos os seus cuidados a Santelo e perguntou-lhe:
       — “O quê eu posso fazer?”
       — “Confiar” – foi a resposta.
       — “No quê?”
       — “No quê não.”
       — “Em quem?!...”
       — “Sim, em Cristo!”  foi a palavra de poder de Santelo.  O comerciante queria confiar, tão precisado estava de solução para o seu caso. Depois de dias e já gozando boa disposição voltou a avistar-se com Santelo e lhe disse:
       — “Desafiei Jesus!”
       — “Qual o repto?”
       — “Falei-lhe: Te chamam Filho de Deus; se podes compadecer-te, prova-me solucionando o problema que tenho.”
       — “Qual a resposta?”
       — “Silenciosa e real!”
       — “Ganhaste um Rei?”
       — “Sim, um Monarca bom e majestoso!”
       Pôla tinha colocado um chiclete na boca e Castão falou que o seu consumo não tinha proveito. Só provocava ferida no estômago!
       — Quem gosta de bobagens verá jorrar os danos das gulodices descontroladas – vaticinou Infausto.
       Tirando os pés do travessão de apoio da cadeira, mãos postas no assento e abaixo das cochas, Pôla começou a sacudir as pernas curtas. Indiferente, punha os seus olhos ora no pregador ora no profeta de tragédias. Ia preparando com a língua a pasta do chiclete até se fazer uma película fina que prendeu aos lábios. Soprou uma bola que foi aumentando até estourar. O chiclete se lhe pegou aos lábios e nariz. Ela o lambeu e começou uma Mastigação barulhenta simbolizando o seu desprezo total pela pregação e advertência dos dois. A seguir falou enfrentando a feição pacífica de Arbítrio:
       — Desejas tornar-nos nativistas das tradições fenomenais; não duvido da tua narrativa. Todavia tal notícia não faz parte do dia a dia dos denominados discípulos de Jesus.
       — Argumentas com a realidade, mas não granjeias razão; quanto relatei, garanto. A Graça não é remédio contumaz, ainda que se compraza no governo dos remidos por Cristo.
       Arbítrio conservava o olhar sereno fixado na face de Póla, que se quedava calada.
       — Sob o sol se acham pântanos infestados por sucuris e prados cheios de flores; tem também a fé dos fiéis que consterna o coração do Santo Pai a conservá-los em portos seguros. Mas é na bondade de Deus que o justo alcança galardão, bastando vigiar boa jornada que agrade o seu juízo, onde desponta o desejo de ganhar viajores vindos da desventura, jornada de volta dos justificados por Jesus.
       — Sem essa lealdade sujeitam-se à ruína? – zomba a relutante Pôla.
       — Não há diferença. Justos e injustos estão debaixo do juízo de Deus.
       — A desgraça vem de Deus? – pergunta Pureza, bisonha.
       — A verdade vem de Deus. A desgraça vem do homem, por deter a verdade em injustiça, julgou um dia Santelo com base na Bíblia e diante de alguém que jogou esse argumento.
       — Que confusão!
       — Compreende, Pôla – falou Arbítrio em seu socorro –, o conhecimento sem a fé sustenta a falsidade.
       — Considero fanatismo pensar que o sujeito do conhecimento só será capaz de proposições verdadeiras se tiver a tua fé – argumentou Pôla em testemunho da sua capacidade filosófica.
       — Ponderando sobre a falsidade – falou Arbítrio sem se perturbar – a sua preocupação é com o conseqüente sem considerar o antecedente. Se chamamos verdadeira a coisa criada, fica sem sustento a ponderação da criação por um poder passivo. Falsidade filosófica, portanto.
       — Podemos falsificar o processo criativo, Pôla? – perguntou Pureza
       — A falsidade troca confidências com a perdição quando pondera sobre o fato e conclui que ele é cousa surgida sem causa produtora – acrescentou Infausto.
       — Deus não se agrada da dúvida do viandante...
       — Com farnel de boas obras, o breu da noite nos devolve à vida – interrompeu Pôla a fala de Castão, cuspindo o chiclete na cesta de papel atrás de sua cadeira.
       — Lembro de um caso contado por Santelo...
       Arbítrio tinha os dedos trançados e anúncio no olhar ditoso.
       — Galdino, que trabalhava de engenheiro e tinha casa perto de uma paróquia, foi visitado por Santelo já na virada da sua vida. Lia suas literaturas religiosas na sala onde estavam misturadas publicações espíritas, mapas zodiacais, Bíblias azuis, amarelas e pretas; pequenos boletins da paróquia, bandeiras místicas, pés de coelhos, mantas de presbíteros. Santelo fez-se anunciar falando que trazia convite para a família participar de uma importante cerimônia. Diante daquela galeria de objetos no interior da casa –  coisas como a garantir a bem-aventurança de Deus – deparando-se com as Bíblias pergunta:
       — “Crês na Bíblia?”
       — “Creio – garante Galdino e continua:      — “És religioso?”
       — “Sou pescador de homens, conheces a frase?’
       Galdino afunda na cadeira, receando o rumo da conversa.
       — “Crês que a Bíblia é a Palavra de Deus?”
       — “Não tenho nenhuma dúvida disso”.
       — “Crês em Jesus?” – seguiu perguntando o Santelo.
       O “creio” era pouco convincente.
       — “Quem é Jesus?” – Santelo queria saber qual o tipo de fé de Galdino em Cristo.
       — “Entre os espíritos luminares ele seria o sol.”
       — “Crês que Ele é o filho do Todo Poderoso?”
       — “Não.”
       — “A Palavra pode confirmar que sim.”
       — “Mostra-me, então” – desafia Galdino.
       — “Qual a Bíblia que eu posso usar?” – pergunta Santelo apontando para as que estavam na prateleira próxima.
       — “Aquela ali” – aponta Galdino para uma delas.
       — “Essa é a única que não serve, e creio que  sabes disso.”
       — “Então escolhe a que quiseres.”
       Santelo estende a mão e pega a Bíblia editada pelos espíritas. Galdino sorri sapientíssimo e acompanha a busca de Santelo na Bíblia até começar a ditar-lhe a passagem:
       — “Tomé respondeu e disse-lhe: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste?;...”
       — “Não terá Tomé exclamado para Deus numa tontura extática?”
       Santelo esperava por essa proclamação faltosa de fé. Procura outro texto, procura mais outro...
       Ao fim de dez passagens despedem-se. A porta de saída do quintal Galdino diz:
       — “Agora só falta ouvir o que o pároco tem a falar.”
       Lá no final da rua Santelo olha à ré. Galdino faz-lhe um sinal. A mão parece pequena no aceno indecifrável.
            No grupo, alguns aguardavam um bom júbilo; desgosto visível em Pureza e zanga jucunda em Pola.
       — Faz-me o favor de falar: qual das tuas falácias se pode considerar?
       — Olha aqui, ó Castão, caça na massa cefálica mórbida centelha de fé, pois quem não tem querer, precisa crer.
       — Não duvidas do teu dito? – diz Arbítrio tristonho. – Tanto Deus nos deu; tudo nos deixou! Dentro de nós ou não, de nosso nada temos. É tudo dele!
       — Jazer na grandeza duvidosa é considerar a basbaque direção visionária.
       — Pensas como tola; te cansas com a dança terreal. Com fé podias trocar o passo dessa polca e dançar o balé do Criador.
             — Proponho o tema fraternidade! “Pondera, ó chato Castão, se tens projeto superior para considerarmos”, pensou Pôla após a fala, querendo fazer conhecida sua superioridade filosófica.
       — Qual a gnose?
       Pôla calou, gaguejou com a questão, gargarejou ruídos querendo contestar o gongorismo.(*)
       — É o ganho religioso que te contenta! - completou Castão rumorejante.
       — Vamos debater governados do bom juízo? disse Arbítrio aos dois zangados.
       — Como ponderar sobre a fraternidade? Se a chamamos de sentimento fiel temos de conceituar a fidelidade.
       — O que é ser fiel, Castão? – pergunta Pôla.
       — Diria isso de um dom governo verdadeiro.
       — Mente: é boa probabilidade?
       — Materialmente pode mostrar-se boa. Mas precisa de bondade para o bem produzir.
       — E Bondade é virtude divina – garante Arbítrio –. Em gente vil bondade vem e vai. Virtude é gestão vencedora de Deus.

       — Subjugastes fraternidade aos predicados supremos e fostes perspicaz – pondera Póla –. E igualdade, podemos tê-la com o Supremo?
       — Esse tema seduz, sibila Pureza.
       — O Todo-Poderoso nos fez do pó. Contudo, pode tudo o Senhor e chamou-nos para Si pelo Filho querido, que é tal qual somos.
       — Falas sobre o Cristo?
       — Sim, Jesus fez-se homem e salvou-nos da vil separação.
       “A Pôla muda para a banda bendita?”, pondera Pureza.
       “Deixa-se nascer de novo!”, não titubeia o Trindade.
       “Vê, afinal, a justiça !”, julga Infausto, visivelmente feliz.
       — Cristo te salva e te faz filha do Pai! – exclama Castão querendo persuadir a titubeante Pôla.

       Tudo isso pensam e falam num dia que se chama: hoje! Passado histórico imperando sem se tornar impositivo.
       “Querem retê-la no redil.”
       “Rogam ganhá-la para Cristo.”
       Pôla rola os olhos. Pondera a fé em todos. Sente claudicar o pulsar do compromisso e fecha-se na ponderação das possibilidades tantas que chamam de fé.
       — Se restringe a liberdade? Sob a realeza zenital estarei subjugada?
       — Liberdade zanga com a realidade se levares a sério o zanzar desta lida.
       — Jorra do jacá de Deus?
       — O Senhor a tem em si, pois é o Todo-Poderoso. Tú podes tudo ó Pôla?
       — A Bíblia diz: “Deus é espírito”. Na jeira* de Deus o governo é dos espíritos.
       — Voltas ao gnosticismo espiritualista.
       — É gnose comprovada – garante Pôla.
       — Te sustentaste na Palavra e agora foges tentando as fracas possibilidades kardecistas. Se crês em tudo, te faltarão convicções. Falar pela Palavra é suficiente.
            Arbítrio levava a rixa pelas rédeas da lealdade. Sozinho, o zelo do seu Rei se impunha. Calavam-se os demais percebendo a tutelar garantia da Palavra de Deus, pois ele botava boca afora os conselhos da Bíblia.
       — Por que temeria eu se falhassem as promessas do Todo-Poderoso conforme as tenho na Sua Palavra e estivesses tú certa?    — Conforme os kardecistas eu tornaria a ser.
             — Contudo, se falharem os kardecistas e forem certas as palavras do testemunho dos profetas, que possibilidade terás de ser chamada ao céu, se para o além partires sem Cristo?
       Pôla parecia gelada, pois tinha as bochechas desbotadas. Arbítrio dirigiu-lhe um gesto bondoso, como a dizer-lhe: queda-te confiante. Depois continuou:
       — Falaste: “Com farnel de boas obras, o breu da noite nos devolve à vida”. Julga bem: Deixará Deus dois espíritos vivendo na vileza* e vasculhando a jeira Dele?
       “Mostra-se minguado o bom senso de Pôla” ? pondera a bondosa Pureza.
       “Debate-se na dúvida”? – deduz Trindade.
            “Sente-se reprovada diante das zelosas sutilezas daquele seguidor do Senhor? –  reflete Infausto.
       Cabisbaixa, Pôla sacode as pernas.
       — Quantas tolices tenho pensado sobre tudo quanto pedes para pronunciar-me. Presentemente posso calcular que tudo quanto eu cria era falso. Quero a Cristo tanto quanto tenho percebido ser o querer de todos os chamados seus.
       Assim, lindo mundo mostrou um novo amanhã conquistado por Pôla.





*gongorismo - excesso de metáforas, antíteses e anástrofes
*jeira - A extensão de terreno que uma junta de bois pode arar num dia
*vileza - que vive numa vida






[1] Santelo (ê) espécie de rede para a pesca de peixe miúdo.