quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Fábula

Os cocoricares da solidariedade
Carlos Mendes

   De um cercado com meio metro quadrado soou o cocoricar de um  galo de briga de azas cortadas. Ele estava assim confinado dentro de um terreno mui grande, de proprietários de mentalidade pequena, e o seu cocoricar ganhou a dimensão de um protesto contra a opressão.
  Lá de cima, no alto do grande outeiro dividido em diversas herdades, soou o cocoricó de um outro galo e os cocoricós foram se sucedendo como vozes humanas. O galo confinado disse:
— Cocoricó, que traduzido é: “que opressão!”.
  O seu cocoricar soou como uma lamúria saindo, arfante, pela goela.
— Cocoricó...! – respondeu o outro galo lá do alto: “Contra qual opressão tu reclamas?”
 Através de diversos cocoricares, o galo opresso contou-lhe a desventura em que vivia.
 E aos cocoricares do galo opresso sucederam-se responsos do que estava acima, no grande outeiro.
— Cocoricó..., instruiu ele à greve.
— Cocoricó..., “mas que greve? Eu não boto ovos?”
— Cocoricó..., “Não gale galinhas, que não haverão pintos, e depois frangos e frangas para engorda, venda e lucro”
— Cocoricó..., “Os meus donos me põem na panela”.
—      Cocoricó, cocoricó, cocoricó... Do alto do outeiro o galo começou a discursar. Depois voou sobre a cerca do galinheiro e foi fazer comício em outros galinheiros.
  Um galo branco e velho demais para ser vendido como frango no mercado internacional contemporizou:
— Cocoricó, que traduzido é: “Há granjeiros que tratam bem os frangos de suas granjas”
  A crista do galo revolucionário avermelhou-se. Ele achava que podia contar com os frangos, que comiam felizes as suas rações para engorda. Sacudiu a crista e a papada e vociferou:
— Cocoricó, cocoricó, cocoricó!!! – acusando o velho galo branco de pelego e continuou o seu cocoricar que virou um discurso inflamado a incitar os frangos à luta de classe.

   E aquele comer, que se constituíra até ali a agradável liberdade dos galináceos que jamais chegariam a ser galos, se transformou depressa numa revolta que alcançou todos os frangos de outras granjas, pregação de desventura que também alcançou os galinheiros. Mas o galo branco e outros galos verdadeiramente livres como ele continuaram vivendo felizes na liberdade que a confiança  lhes dera.  

Artiguetes

Médico importado

Geraldo Duarte*

Jovenildo grelou os olhos e esticou os ouvidos. Premiu com força a tecla de aumento de som do controle do televisor. Zefinha, sua mulher, cochilante, meteu dos pés e gritou irritada: que zuada é essa home de Deus?.

Mulhé! O Brasil arrivirou. O gunverno vai trazê médico das estranja pru sertão! Vai dá pelos peito dum peba gordo!.

Dia amanheceu com Jove na porta da casa do mais esclarecido cidadão do povoado. Professor Felisberto.

O mestre disse conhecer a notícia. Programa Mais Médicos. Em pausado linguajar explicou detalhes ao agricultor.

A solução não era simples. Ali, naquele grotão, não havia posto de saúde, aparelhamento, enfermeira, atendente, auxiliares, medicamentos, nem outras exigências mínimas para o objetivado.

De que serviria a presença de um profissional da medicina? Mesmo que os tais doutores, originários de países vários, falassem a língua praticada em nossa Pátria, nos compreendessem e fossem compreendidos, entenderiam os regionalismos? Precisariam de intérpretes? Inclusive, com conhecimentos folclóricos ou populares?

Complementou citando consulentes queixosos de amarelão, amojamento, antoje, arroto choco, azedume, berruga, deitar lombriga, coceira entre o ventoso e o penoso, comichão, curuba, dor do comprido que desce pro redondo, espinhela caída, formigado, friviação ardida no mucumbu, nó na tripa, pilôra, coceira na tripa gaiteira, tremelique, vento preso e centenas de outros termos do Dicionário de Medicina Popular, de João Conrado e Olimar Filho.

No dizer do velho e sempre replicado refrão de Colorau, lá dos Inhamuns, Tá muito difícil, tá muito difícil!.

                                                                                                      *Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.   


NOTA:  Ó Nordeste!  O teu igual que inventa tontices, que se explique junto ao nosso Geraldo Duarte.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ou ficar a pátria livre dos ladrões, ou morrer pelo Brasil

Cansei!
Carlos Mendes
               Cansei!...Cansei de ouvir Paulo de Carvalho, pois de nada me serve o conhecimento filosófico sobre o nascimento e  a fixação de um regime comunista tão bestial quanto está evidente na filosofia" gramscista: amontoado de regras e propostas nascidas pelo espírito doente no corpo e na alma de um adorador desiludido de Marx, que se achava Leninista.
               Não agüento mais ler ou ouvir as opiniões  especializadas, comentários, debates, (...), sobre "o que vai acontecer com a democracia brasileira" que os jornalistas, vermelhos, ex-vermelhos, amarelos, verdes-banana, azul celeste,  e tantos outros azuis, enfiam pelos nossos olhos e orelhas adentro!...
               Estou cansado de ler Reinaldo Azevedo, Serrão e outros ...  De ouvir Jabor, Bóris,
Mitre...
               Meu cansaço é imenso! Sinto cansaço só de ver as passeatas -  cheio de asco por elas, que deixaram bem declarado um projeto anunciado, seja por falta de visão, ou visão demasiadamente estúpida. E vi essa falsidade confirmada pouco posteriormente pelas falas  do - (custa-me até pronunciar-lhe o nome) - Lula: 'agora há demandas nas ruas' e outras frases bem projetadas pelo(s) gênio(s) que lhe ditam as palavras estratégicas, que certamente o trará de volta... Para desgraça definitiva desta patriazinha em que nos tornamos. Só de vê-las pela televisão - (as passeatas) -, achei-as estúpidas. Coisas de "beatos", que jogam de bobos pela causa da ruína da nação!  Não sabem calcular em que abismo de prolongado atraso lançarão a nação! Não têm alcance de visão, a não ser a um palmo do nariz. Não conseguem calcular a ruína que decretam a seus próprios filhos, que os sucederão em incontáveis gerações de miseráveis, que continuarão sobrevivendo pelo trabalho escravo "da mão-à-boca". E, além de não terem visão, falta-lhes também o olfato apurado dos que aqui conseguiram  viver pelo menos em ambientes relativamente limpos. Também não conseguem sentir o "fedor" das próprias bundas, para as quais até os porcos criados em chiqueiro de porcadeiro negligente, virariam para eles seus narizes , para não sentirem o fedorento que deixam após si quando passam pela porcada.
               Não consigo uma descrição possível!...  
            Como evitar a catástrofe que está a anunciar-se nos 52% que os ibopes da vida já começaram a divulgar para o representante gramscista no Brasil?
               Para salvar a pátria brasileira  é preciso governar a pátria dividindo-a, inicialmente, em duas regiões políticas absolutamente autônomas, com os Estados autosuficientes e autônomos (aqueles que tributam mais à União do que dela recebem) e Estados dependentes (aqueles que triburam menos à União do que Dela recebem), isto por tanto tempo quanto seja a situação de dependência destes, cronicamente endividados.
               E depois disto? Construir um Brasil com Estados independentes, política e economicamente, onde a soma dos Estados, Confederados em diversas regiões políticas, promovam eleições para escolha da instituição presidencial.
               Ou ficar a pátria livre dos ladrões, ou morrer pelo Brasil!
Saibam quem foi Gramsci e quais as suas paranóias de poder acessando o lionk abaixo


Organizem comitês em seus bairros. Sem concurso de nenhum político! Pensem no aqjue está reservado para vossos filhos, e organizam-se. Consultem e legalidade desta proposta.  

sábado, 10 de agosto de 2013

Conto: Juvêncio e Miguel

Amigos e/ou seguidos,
Conforme anunciado, estou postando um dos mais apreciados títulos de minha coleção de Contos, que em termos de vendas só perdeu para "Aconteceu Na Noite de Natal", lançado no Natal de 2.000. 
Espero que o apreciem,
Carlos Mendes


Juvêncio e Miguel
         
A cara redonda, o cabelo curto, o olhar inocente e um sorriso permanente na face convidavam o ataque da astúcia. A estatura elevada, a flatulência do corpo e o jeito bonachão de tratar com as pessoas completavam a aparência de cidadela desguarnecida.
        Caia fácil no conto do bom emprego e se alguma coisa não acontecesse ele continuaria carregando por muito tempo a pesada mala de vendedor ambulante autônomo das quinquilharias sem utilidade prática fabricadas por um industrial esperto que prometia grandes comissões que jamais renderam qualquer lucro para alguém.
        Passível de entusiasmos, os caçadores de adeptos viviam a mudar-lhe as preferências. Saía certa feita de uma galeria no centro da cidade quando duas mulheres o convenceram a comprar um amuleto, persuadindo-o da boa sorte que lhe traria se o pendurasse ao pescoço. Bisbilhotando-lhe as preferências, as espertinhas queriam saber que tipo de sorte desejava: se mulheres, fama ou fortuna.
    Mulher eu não preciso porque me agrado da que tenho em casa, que me deu cinco filhos saudáveis que eu tenho de sustentar e educar. Por isso eu preciso vender bem toda a mercadoria que carrego nesta grande mala.
    Pois então, homem! Pendura esse amuleto no pescoço e começa a frequentar as reuniões diárias onde os apóstolos abençoam os caminhos da prosperidade.
        Juvêncio viu que um homem alinhado, pé encostado na coluna da porta de uma pastelaria que funcionava dentro da galeria, lhe dirigia um persistente sinal com a mão direita, indicando que não devia aceitar o que lhe estava sendo proposto. Devolveu o amuleto, mas custou a se livrar das mulheres que se foram sem lhe devolver o dinheiro. “De certo esqueceram”, pensou, propenso que era para desculpar as faltas alheias. Olhou para o local onde vira o homem alinhado, mas ele já lá não estava.
        Foi negociar na rua onde os “marreteiros” armavam as suas barracas. Os mais prósperos que ali vendiam toda sorte de bugigangas não se interessaram pelos artigos de baixa qualidade que Juvêncio carregava na grande mala.
        No final da fileira das barracas encontrou  um novo comerciante que tinha armado a sua ao lado da que pertencia a um homem corpulento, braços e tórax peludos se mostrando pela abertura da camisa e abaixo das mangas curtas. Juvêncio tinha negociado com ele no dia anterior, vendendo-lhe a prazo todo o conteúdo da mala. Viu que os dois comerciantes discutiam.
    Tu não vais vender essa mercadoria aqui - dizia o homem peludo para o novo marreteiro, apontando para uns relógios coreanos iguais aos que ele vendia na sua barraca.
        Mas a aproximação  de Juvêncio provocou uma trégua na disputa. Imperativo, o homem peludo chamou para si a atenção “daquele bom fornecedor”.
    Deixa-me ver o que trazes hoje na tua mala - disse-lhe o homem peludo e Juvêncio abriu a mala em cima da banca da sua barraca, para ele examinar.
        O homem lhe disse que a prazo comprava tudo.
        Muito animado Juvêncio se preparava para descarregar o conteúdo da mala quando viu o homem alinhado que conheceu na galeria lhe fazendo o mesmo sinal, acrescentando um outro que aconselhava venda a dinheiro.
        O homem peludo notou que o olhar de Juvêncio se desviara e procurou saber o que lhe chamara a atenção.
    Esse cartaz já é velho e a droga do circo nunca mais apareceu nesta cidade - disse ele achando  que “aquele fornecedor jóia” se interessara pelo conteúdo do cartaz.
        Juvêncio voltou a olhar para o local onde vira o homem alinhado, mas ele já não estava mais ali.
    Desculpe-me, mas hoje só lhe posso vender a dinheiro - disse para o peludo que o olhou de alto a baixo e foi atender uma moça que examinava um berloque.
        O dono da nova barraca mostrou-lhe um maço de notas novinhas e disse que comprava tudo no dinheiro e, ao encará-lo, Juvêncio viu que por detrás dele o homem alinhado voltava a lhe fazer o mesmo sinal que o havia impedido de agir por duas vezes e que acrescentava com sinais labiais: “dinheiro falso”.
        Completava uma semana de andanças a procura de compradores para as mercadorias da mala. Cansado e faminto ele entrou na estação rodoviária onde costumava comer um sanduíche de mortadela enquanto descansava. Sentiu vontade de urinar e ia pedir a uma moça muito maquiada e vestida com saia curta e apertada demais para vigiar a sua mala. Mas o homem alinhado lá estava assentado ao lado dela, elegante e com as pernas cruzadas. Acenava-lhe o dedo para não fazer o que estava pensando e movia os lábios num: “é ladra”. Ele pegou a grande mala e foi com ela para o banheiro, passando a custo pela roleta depois de depositar nela uma moeda.
        Quando saía da rodoviária um camelô o abordou tentando vender-lhe um bilhete de loteria e ele olhou para os lados procurando o homem alinhado para saber o que o aconselharia. Não o vendo, achou que podia permanecer firme na resolução costumeira e disse para o camelô que não comprava porque não tinha o costume de jogar.
        O camelô aparentava uns trinta anos e se trajava com roupas largas e claras que lhe assentavam bem no corpo magro e alto. Guardava uma distância conveniente e gingava o corpo ao falar. Os sapatos brancos que calçava emprestava graça aos seus remelexos. Agradou-se do rubor facial que denotava a timidez daquele homenzarrão branquicento a quem certamente venderia alguma coisa. Tirou dez bilhetes para ônibus e ofereceu-os a Juvêncio por preço irrecusável, argumentando:
    Você deve andar muito de ônibus, não é?
    Puxa, e como! - respondeu Juvêncio enquanto o camelô lhe enfiava os bilhetes no bolso da camisa.
        Juvêncio tirava do bolso as últimas moedas com que pagaria aqueles bem-vindos bilhetes, locomoção garantida para mais cinco dias de trabalho no centro da cidade, quando viu o homem alinhado parado na calçada oposta e a lhe fazer o costumeiro sinal que já o induzira a diversas recusas naquele dia. Largou as moedas, tirou a mão do bolso e examinou bem os bilhetes voltando a colocá-los no bolso. Olhou com reprovação para o lugar onde vira o homem alinhado, mas ele não estava mais ali. Pagou o camelô que contou as moedas e se retirou rápido.

        As lojas começavam a fechar, as barracas a serem desarmadas e Juvêncio a desiludir-se por mais um dia de trabalho improdutivo. Vergado pelo peso da mala da qual não conseguira aliviar uma só grama, ele caminhava para o ponto do ônibus que o levaria de volta para casa. Chegando na praça de onde o ônibus partia, ele se assentou num banco para descansar antes de tomar o seu lugar na fila que ainda era pequena porque o pessoal do comércio e dos escritórios ainda não tinha começado a sair do trabalho.
        Um casal que lhe vendia literatura religiosa o abordou:
    Esta semana a nossa revista traz uma reportagem muito boa - disse o homem apontando para um dos títulos que a capa exibia: “O Que Jeová Fala Sobre a Transfusão de Sangue”.
        Juvêncio se preparava para lamentar a falta de posses daquele dia quando viu novamente o homem alinhado. Estava assentado noutro banco da praça e lhe recomendava novamente a recusa.
    Eu quase perdi um bom negócio hoje por causa do senhor - disse para o homem com a sua natural delicadeza e surpreendendo o casal à sua frente, que olhou para trás e não viu com quem poderia ele ter falado. Juvêncio perguntou: - Posso levar a revista e pagar depois?
    Nós deixaremos uma reservada para você comprar amanhã - respondeu a mulher se retirando com o seu acompanhante.
        A fila do ônibus começava a esticar e Juvêncio foi tomar o seu lugar nela.
        Foi o décimo passageiro a chegar na roleta. Pegou um dos bilhetes que havia comprado e entregou-o sorridente ao cobrador que o olhou carrancudo.
    Tá querendo dar uma de espertinho, moço?
        Juvêncio corou.
    Essa cara de inocente não combina...
    Calma seu cobrador - atalhou Juvêncio ainda mais vermelho e colocando a pesada mala no assoalho - é a primeira vez que estou pagando com um vale. O que ele tem de errado?
    Pode ir voltando por onde você entrou. Tem muita gente querendo pagar e você está atrapalhando - disse o cobrador, talvez irritado pelo cansaço.
    Por favor, o que há de errado com o meu bilhete?
    Está vencido, moço! Esse bilhete de cor rosa deixou de circular no ano passado.
        Juvêncio desceu. O vermelho do rosto estava agora tisnado porque para ele concorria o cansaço e a vergonha que jamais na vida enfrentara. Sentou novamente no banco da praça e viu o homem alinhado assentado no mesmo lugar  onde estivera antes. “Parece o espelho da minha própria desilusão”, pensou Juvêncio. “Será empatia que o faz sentir-se triste como eu estou? Teria assistido a minha humilhação e solidariza-se comigo, ou...”
        Juvêncio considerava a hipótese de o homem ser o anjo Miguel de quem a revista que comprara do casal na semana passada afirmava que, por ordem de Jeová, continuava agindo em socorro das pessoas. Olhou novamente para o homem e viu que este balançava a cabeça em sinal de perplexidade e reprovação.
    Então quem é o senhor? - perguntou Juvêncio no momento em que um grupo de adolescentes vindos do Liceu onde estudavam cobriu-lhe a visão. Depois de passarem ele não viu mais o homem alinhado. Mas um outro homem estava parado à sua frente, pedindo-lhe permissão para sentar ao seu lado e conversar com ele sobre o incidente no ônibus. Juvêncio corou e balbuciou acanhado:
    Isso nunca aconteceu comigo...
    Estou certo disso - afirmou o homem e continuou: - Qualquer pessoa  com um mínimo de discernimento espiritual concordaria comigo ao tomá-lo por uma pessoa de bem, que deve ter sido enganado por um dos muitos espertinhos que andam pelo centro da cidade caçando a quem possam ludibriar.
    O senhor me viu comprando os passes?
    Não, mas já presenciei muitas malandragens cometidas pelos desocupados e e preguiçosos.
        O olhar inocente de Juvêncio comoveu o homem e este deduziu que estava diante de alguém que desconhecia o que algumas pessoas faziam a título de “aliviar”, como era a gíria corrente entre os meliantes. Achou melhor respeitar aquela inocência, pois conhecia bem a quem ela agradava. Devia harmonizar as palavras com o caráter puro daquele homem.
    Eu estava sentado em frente ao senhor quando o casal  procurava   vender-lhe  a  revista  e orava pedindo a  Deus uma oportunidade de lhe falar sobre Cristo.
    O senhor é crente? - perguntou Juvêncio e o homem respondeu que sim. - Os crentes também vendem literatura?
    Não - respondeu o homem. - Nós gostamos mais de dar uma Bíblia de presente para quem não a possui e a literatura que produzimos só fala do que a Bíblia revela sobre Jesus.
        Juvêncio percebeu a singeleza daquela fé única, a qual satisfazia plenamente a sua expectativa sobrenatural.
    Eu acho que conheci o anjo Miguel - disse ele contando a experiência daquele dia com o homem  alinhado.
    Ainda que os anjos sejam ministros de Deus, O Todo-Poderoso prefere manifestar-se através de homens ou diretamente pelo Seu Espírito Santo.
        O homem contou a história bíblica sobre Cornélio e depois sobre a conversão de Saulo de Tarso e acrescentou:
    No primeiro caso o apóstolo Pedro foi o instrumento de Deus. Mas com Paulo foi a própria pessoa de Cristo que o chamou à obediência. Eu acho que quem resolveu revelar o grande amor que Deus tem pelo senhor foi o Espírito Santo de Deus, que é quem glorifica a Cristo no mundo.
    Então foi a Jesus que eu vi?
    Talvez o senhor tenha visto o Anjo do Senhor, que é uma presença considerada como realidade de Cristo, personificando a ajuda da parte de Deus para o senhor.
        Juvêncio creu então em Cristo que amorosamente se revelara para ele. Depois, discípulo ainda sem o conhecimento das Sagradas Letras, a não ser o que se relacionava com a revelação suficiente, falou do mesmo Cristo para a mulher e para os filhos e estes também creram. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Artigo

Alienação ou angústia - II
                                                    Carlos Mendes

Conheci de perto, diria que cara a cara e ao vivo, o metalúrgico Lula. Eu não o vi bradar somente palavras desafiadoras aos “inocentes sofredores passivos” na conjunção do que em Marx se tornara axioma da “mais valia” como meio de exploração da mão-de-obra pelo capital, que a remunerava com apenas uma pequena parte das dez que agregava, fossem maiores ou menores as sofisticações tecnológicas envolvidas nos processos produtivos ao tempo do filósofo.
Depois de alguns anos analisando e estudando o fenômeno Lula, que se confunde com aquilo que é próprio do sindicalismo brasileiro, passei a considerá-lo um oportunista angustiado1 entre a perspectiva da miserável situação dos nordestinos, pobres e absolutamente desvalidos, ante a vil ambição dos coronéis nordestinos e a desventura de, como igual nessa tragédia, não poder compartir com a medrança dos ricos capitães de empresas paulistas, que souberam dar oportunidade a outros homens capacitados pelos mais variados saberes necessários ao controle e direção dos grandes conglomerados empresariais e, também, a nova classe de operários especializados saídos das escolas SESI e SENAI paulistas, onde na primeira o metalúrgico Lula aproveitou uma única oportunidade de ensino e aprendizado.
Não falarei da falta de continuidade em busca de outras formações até chegar a de nível superior, desperdiçadas pelo metalúrgico em questão. O argumento sobre essa desídia é bem conhecido pelos brasileiros que habitam os Estados sulinos, os quais, em grande maneira, jamais desperdiçaram tais oportunidades, pelo que progrediram e, por isso, tornaram-se defensores intransigentes dos regimes políticos que respeitam as liberdades individuais; a capacidade do homem que sabe agregar capital quando há liberdade de iniciativa; o direito de enriquecer pessoalmente e com legitimidade; a liberdade e o lícito incentivo para criar com a fortuna amealhada novas oportunidades para si e para outros tantos profissionais da indústria, comércio ou lavoura, oportunidades que, se não as encontram, continuam consumindo pelo trabalho escravo a mísera retribuição do que lhes baste à subsistência “da mão a boca”2.
Tem razão Mészáros, discípulo de Lukcás, que combateu as idéias de Lênin. Mas Lukcás foi obrigado a pagar contributo de subserviência a Stalim, quando da divisão européia entre o Nazi-Fascismo na Europa Central e o comunismo no leste da Europa e norte da Ásia.
Marx, cuja filosofia moldou o pensamento de bem intencionados, excluído Lênin, raposa raivosa que tão somente serviu-se do legado do grande mestre para criar a excrescência, que assumida sob o gládio infame de Stalim, subjugou o espírito do formidável povo russo durante tantas décadas ao explorar o sonho dourado, mas intangível num regime totalitário, da “consciência de classe”.
Mas o inquieto Lukács, conforme suas próprias palavras, “estava ébrio de entusiasmo por um novo começo” quando se propôs a repensar as relações entre Hegel e Marx. Mas, como expor suas novas convicções sob o abrigo dos domínios stalinistas? Todo estudioso desta nova fase na obra de Lukács, precisará considerar as evasivas por ele utilizadas ao expressar o seu novo pensar sobre “consciência de classe”. 
O projeto comunista arquitetado por Lênin e executado por Stalim está tão longe do pensar de Marx quanto de Lukács e Mészáros, pois com suas teorias da plenitude de poder totalitário, desvirtuaram-no, dando ganho de causa a Stalim, Hitler, Mussolini, Fildel e, agora, aos novos e minúsculos postulantes ao totalitarismo: Chávez e Lula.

[1] AN-GÚS-TI-A Propriamente, conjunto de fenômenos afetivos dominados por uma sensação interna de opressão e de estreitamento (angústia) que acompanha de ordinário o receio de um sofrimento ou de um infortúnio grave e iminentes, contra os quais nos sentimos impotentes para nos defendermos. (Voc. Téc. e Crítico da Filosofia, André Lalande)
[1] Mészaros

Reeditado a pedidos.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Crônica

RETRATO DE UMA DEPRESSÃO
Carlos Mendes

Disse uma repórter: “Com a chegada das flores plásticas, nunca faltam flores na praça”.
Fui conferir a existência do presumido belo da florada que imita a ocupação primaveral dos galhos ressequidos nas árvores e nos arbustos naturais e concluí: É beleza morta disfarçando o contratempo.


Adversidade igual e invisível carrega no peito quem não tem mais jeito para a alegria brotando espontaneamente do âmago da alma; e o que tenta imitá-la, só consegue colocar no rosto um convulsionado sorriso, impromptu de alegria ou pulsão de conveniência que logo escapa à alma; alegria que só aceita o alegro saltitante e o vivace esfusiante no modo das execuções musicais, que servem ao gosto das danças aos rodopios, com pares embriagados pela ventura efêmera, que se vão buscar nos salões das animadas e passageiras festividades; triviais alegrias nos corpos e embaraços nas almas depressivas, deduções nos acanhados expedientes de tais fulgores outrora vividos nas experiências, as quais nos levam a enxaqueca muito parecida com a do porre que sucede as grandes bebedeiras.