sábado, 13 de abril de 2013
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Exegese
Evangelho de João, Capítulo 15: 1 a 3
1 - Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador.
2 - Toda vara em mim que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá
fruto, para que dê mais fruto.
3 - Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado.
Enquanto apliquei
esforço intelectual na aprendizagem dos ensinamentos de Jesus, na passagem
bíblica que me serve de base para esta meditação, só consegui apreciar a beleza
estética da parábola, gênero culto de literatura.
Parábola, espécie de alegoria ou
apólogo com ensinamento moral é gênero que já encontrara antes de me apegar à
leitura da Bíblia, nas famosas fábulas “A formiga e a cigarra”, “O Cordeiro e o
Lobo”, que La Fontaine
escreveu na renascença literária francesa, entre outras também muito
conhecidas, sendo este estilo um método empregado no discurso, onde as verdades
morais ou religiosas são ilustradas pela analogia entre os fatos da vida comum.
Muitos ensinamentos de Jesus são
riquezas deste gênero literário, que
também explora a alegoria para inculcar uma verdade onde falam animais ou seres
inanimados. Portanto, na qualidade de homem Jesus legou-nos muitos tesouros
literários. De homem para homem ele falou o que os seus apóstolos registraram,
construindo um acervo literário simples e acessível, erudito e espiritual.
As expressões alegóricas impressionam o
sensório, onde a nossa sensibilidade é ativada, favorecendo o surgimento de um
fenômeno psíquico-neurológico conhecido como cognição
A passagem em João, 15, impressionou-me
durante muitos anos e recentemente esforcei-me para compreende-la em sua
profundidade intrigante, pelo que apliquei-me em pesquisas hermenêuticas(2) e
epistemológicas(3). Desse esforço não resultou mais do que novos
reconhecimentos superficiais. Com esses equipamentos não consegui senão uma
visão melhorada do texto literário. Entendi, então, que faltava a revelação
presente no texto, pois ele não expressava apenas o falar de um homem
admirável, mas os ensinamentos incomparáveis do Onisciente. E ao sentido do que
Deus fala só é possível chegar por revelação do próprio Deus. Como isso
aconteceu comigo, já experimentado em muitos desses insight(4)? Com certeza
esquecera-me de buscá-lo em João, 15. Coisa intrigante o que a miúdo se passa
conosco. Portanto, que ninguém se encha de jactância, disse eu para mim mesmo
ao lembrar-me do que a própria revelação de Deus tantas vezes me ensinara.
Inclinei-me então para buscar a
revelação de Deus nesse texto e a iluminação começou a brotar naturalmente. Eu
argüia a Deus sem pressa, passo a passo, versículo por versículo e Dele recebia
de revelação em
revelação. Respostas simples eu recebia em doses continuadas.
Vez ou outra a iluminação tardava, mas não me afligia pois estava cheio de fé condicionada à certeza que havia tesouros infinitos na passagem.
Já correu uma semana e eu continuo buscando esses tesouros. Aos que já cheguei
vou mostrar. Mas sobre tais tesouros, não pensem os que lerem estas linhas que
os terei esgotado nestas mostras do que me foi dado entender da parte de Deus,
pois haverão outros à disposição dos que, sem pressa, começarem a se abeberar
nesta pequena passagem cheia de fontes inesgotáveis de revelações dos mistérios
de Deus.
Vejam
que coisas simples eu tenho para contar:
Argüi
o versículo 1 e entendi que Deus continua trabalhando na sua lavoura e cuidando
da única videira que nela está plantada, pois se não houvesse mais trabalho a
fazer na lavoura não haveria mais a figura do lavrador: “Meu pai é o lavrador”.
A menção “meu pai é” firmou a minha fé no tempo presente e procurei saber quem
acabara de falar-me e achei então Jesus falando comigo no presente e através do
texto. Falava comigo no presente e estava presente nas palavras do texto. Falou
“eu sou a videira verdadeira” e revelou-me que estava sob os cuidados de um
lavrador que era o seu pai ao dizer-me: “e meu pai é o lavrador”:
Quem
falava comigo não estava sozinho no mundo; mundo e lavoura de Deus com uma
única videira nele plantada. Única verdadeira na lavoura de Deus. Portanto, não
havia outra do mesmo gênero e conforme a revelação no presente, presente na
lavoura, que é o mundo, ela no mundo continua. A videira não está solitária num
ermo, pois sobre a lavoura trabalha o lavrador e também eu, pois existo nesse
tempo presente. Contados o lavrador, a videira e eu, éramos então três na
lavoura? Quem arriscará contradizer?
Descoberto
que a videira é Jesus, passo a ouvi-lo falar as palavras do versículo 2, e
entendo que ele continua falando da videira e dos cuidados do lavrador. Agora a
videira é referida pelo pronome pessoal “mim”. Jesus personaliza-a em si mesmo
como fonte produtora de frutos, pois para esta finalidade fora plantada na
lavoura (Mundo) do agricultor. Argüindo o sentido da comparação, precisei
socorrer-me nos versículos seguintes onde me identifiquei como um ramo enxertado
naquela videira. Em primeiro lugar, entendi que a videira não tinha este ramo quando o
agricultor plantou-a na sua lavoura. O agricultor não a fez nascer de um ramo
ou de uma semente. A videira era, então, preexistente em relação à lavoura. Em
segundo lugar eu entendio que é na lavoura que a videira recebe os seus ramos e
que serão neles que nascerão os seus
frutos. Para esta produção são enxertados pelo trabalho do agricultor,
que poda os ramos que não cumprem esta finalidade de frutificarem. Mas se não
dão frutos são como os parasitas que o agricultor remove para não consumirem
inutilmente a seiva vital que alimenta os ramos produtivos. Em terceiro lugar
eu entendi que ao lavrador interessa melhorar o vigor natural dos ramos
produtivos para que os frutos se multipliquem sempre em maior escala.
Recebida
esta revelação como sendo vara de uma videira, considerei que a minha
finalidade como homem no mundo (ramo da videira na lavoura do agricultor) era a
produção. Mas, qual o fruto que o lavrador desejava colher deste ramos?
Ao versículo 3 não preciso argüir, pois
as revelações dos dois primeiros produziram a certeza de que é por meio da fé
que faço parte do corpo de Jesus (videira da lavoura de Deus). Mas o versículo
traz uma revelação animadora da parte de Jesus para mim, quando afirma que a
palavra que ele me tem falado já me limpou. Então exulto ao descobrir-me vara
produtiva e cheia de vigor para a reprodução do amor de Deus, porque “Deus é
amor” (João 3;16; 1 Coríntios 13; 1 João 4:8 e 4:16). Amor conforme Paulo o
expressou em Romanos 5:5.
Carlos Mendes
Também exegeta bíblico.
Escritor, poeta e cristão alinhado com a doutrina bíblica
dos evangélicos batistas.
terça-feira, 9 de abril de 2013
AOS LIVREIROS OU ENCARREGADOS DE LIVRARIA NA IGREJAS DE CRISTO
É autor do livro "Missões Metropolitanas", que contém o tema de sua vida: a sua experiência como evangelista, por Deus vocacionado, à serviço da PIB-Primeira Igreja Batista em Suzano, onde foi membro e exerceu esse ministério por longos 18 anos, sendo desbravador de quatro Frentes Missionárias onde a igreja plantou quatro novas Igrejas de Cristo. Por isso, deu à obra o sub-título: "Missiologia prática de um evangelista". Em 1993 o novel pastor Alberto Kenji Yamabuchi, hoje pastor na IBVG e também Cientista da Religião, Doutor em Teologia e professor na Faculdade Batista das Perdizes, São Paulo, Capital, informou ao autor que a tese citada foi utilizada no último semestre de sua formação superior, nessa mesma faculdade.
Carlos Mendes dedica-se inteiramente às letras desde 1993. O romance, folder acima, é a terceira obra do gênero evangélico que escreve, além de dezenas de Contos e Contos Ligeiros amplamente divulgado em seu blog: "LogosNews", link abaixo.
A obra deste autor é ampla e sua participação como literato muito reconhecida no ABCDM, região com mais de 3 milhões de habitantes, no Estado de São Paulo.
Carlos Mendes
Residência: Rua Kaneo Hashimoto, 14 - Estância Noblesse - Ribeirão Pires - SP, onde vive há 24 anos com sua espôsa, Maria Estela Mendes, com quem é casado há 57 anos.
Blog: http://egeneto.blogspot.com
E-mail: amigosdasletras@terra.com.br
http://www.facebook.com/blogdocarlos
Tel.: (11) 4825-6702 Estela e/ou Carlos
Celular vivo: 9 72678232
segunda-feira, 8 de abril de 2013
O Arbítrio Conto de: Carlos Mendes
Personagens:
•
O Arbítrio
•
Personagens:
•
Arbítrio, narrador
e personagem principal da história.
•
Castão,
Moralista que vive fazendo sermões.
•
Infausto, É
o protagonista que vê desgraça em tudo.
•
Pôla, personagem
que interage como opositora ao arbítrio, que a quer convencer sobre os bons
arbítrios.
•
Pureza e Trindade, personagens figurantes. Tímidos, eles interagem mais como
ouvintes e espectadores; são agentes passivos que deixam conhecer os seus
sentimentos íntimos pelo que pensam e pelas reações emotivas que transparecem
nos seus gestos e expressões fisionômicas.
•
Santelo, é
o personagem que pertence a memorialista de Arbítrio, que cita
ensinamentos deste mestre para sustentar suas exortações. Santelo é o paradigma
do “pescador de homens”, vindo daí o seu nome. Os fatos ligados a este
personagem são verossímeis, pois eles estão ligados a fatos reais que o autor
deste Conto Ligeiro ouviu de seu pai.
•
Informações sobre o texto
•
Frases e períodos do conto ligeiro O
Arbítrio foram escritos com palavras do mesmo grupo fonético, o que
emprestou sonoridade à audição da obra, se declamada. O leitor também
encontrará alguns ornamentos de linguagem que atenderam o propósito de
emprestar-lhe um quê poético.
O Arbítrio
Quando Santelo se
fixou por ali, logo todos o consideraram cheio de paixão pelas almas. Pôla,
como era conhecida Paula pelo feito lingüístico do irmão caçula ao
balbuciar-lhe o nome pela primeira vez, chamou para si a atenção com o
costumeiro e ruidoso muxoxo que fazia quando ouvia o que não a agradava.
—
Paixão é coisa que se tem pelo concreto – disse sacudindo as pernas curtas
abaixo das saliências laterais das fartas nádegas esparramadas pelo assento da
cadeira, embora premidas pela calça de fustão turquesa que trajava.
Sentado
na poltrona em frente de Arbítrio, que sempre lhe fornecia a base dos
pensamentos, e prior natural das questões colocadas para o grupo, Castão tinha
a carranca fechada e olhos postos em Pôla, tola perante o seu parecer. Não
ficou só na carranca. Foi prontamente falando:
—
Sem fé não se tem chance de conhecer os postulados da Palavra...
Da
discrição passou para o conselho:
—
Ó Pola, deixe a boa visão de Deus governar os teus zelos.
—
Gosto do vocativo dessa zanga do Castão – disse Infausto juntando-se à valorosa
demanda. – Duro juízo vem!..., bradou valorizando o “vem” do vaticínio.
—
Os sermões do Santelo destinavam-se a pequenos peixes – balbuciou Pôla amuada.
— Porque preferia trabalhar com os
desvalidos?... És capaz de compreender o quanto procurava preparar-se para
chegar a eles? – defendeu Arbítrio.
—
Qual a cultura desses pobres párias para que precisasse de preparo? – Póla
continuava sarcástica.
—
Significação cheia de parcialidade. Pecado que pode conduzir-te ao subterrâneo
dos falecidos! – proclamou Infausto.
A
volúvel zombaria de Pôla não justificava a fala fatídica de Infausto, julgou
Arbítrio. Enquanto vivesse seria viável a sua salvação.
—
Santelo zelava pela liberdade real
—
Real ou sonho sem sentido? – zunil a sibilante reação de Póla.
Calando-se
quanto ao rumo da conversa, Arbítrio governou o conselho com a razão do seu
Rei.
—
Falsidades são todas as coisas que conhecemos; não são feitas do que parecem
ser. Se te puseres a calcular a tua felicidade por elas, falharás! – pregou
Castão.
—
E amor ardente não olha o aparente. O mundão é lindo, mas só tem presente. Ele não terá mais amanhã quando findar –
suave e lento Arbítrio ia falando.
Pôla ficou calada e ele continuou
tentando convencê-la da etérea existência da alma, objeto da paixão de Santelo.
—
Jovem baderneiro ganhava duvidosamente a vida. Santelo, vizinho dele,
garantiu-lhe a vulgaridade do seu viver desbaratado. Vejam o jeito do
jambeiro... – disse Arbítrio com voz de zéfiro. – ...Sua pequena tela se
fechando para pegar esse peixe tão chué, pequeno, todo tisnado de tantos
pecados.
Fez
pausa para pensar.
Pôla
botou as mãos nos bolsos da jaqueta vendo Castão boquiaberto e Infausto
vangloriando-se da desdita do jovem vilão bem descrito por Arbítrio.
—
Transformou-se o mal menino?
Castão
perguntava e Pôla se chateava pelo feito. Ficavam calados os bons de ouvido. Um
era o Trindade, chamado assim pela fé dos pais nas três pessoas do Todo
Poderoso, ao se converterem. Do sexo feminino era quem se sentava próximo de
Castão; se chamava Pureza e tinha procedimento condizente com o nome.
— A bondade de
Deus deu-lhe a vida e Santelo dedicou-se a guiá-lo na busca do galardão zenital
– disse Arbítrio jubiloso.
Infausto falou
do trágico fim de Pôla, chamando-a de perdida contumaz caso ficasse titubeante
perante o sacrifício de Cristo.
— Vê bem,
Pôla: justiça deve governar a vida e Deus gosta da bondade – garantiu Castão.
— Conta-se que
Santelo, dia ainda cedo, com unção de talento procurava sem pejo jagunço
violento. Achou-o desbotado, sem cor e sem fama debruçado num balcão tomando
uma Brama. Justo em bar de ladrão entregando volantes, estendeu a sua mão ao
violento vilão. Palavras vibrantes de misericórdia provocaram discórdia entre
os meliantes. Ameaçou Santelo o vilão mais franzino vibrando um martelo. Outro,
o Tomazino, punhos qual cutelo, defendeu o Santelo.
Com zombaria
no olhar relutante e laborando solapar o raciocínio, Pôla ruminou:
— Pões contos
da carochinha no argumento. No fundo tal situação não se sustenta.
—
Sem falsidade te falo. E conto fatos consumados pela pregação da fé em
Cristo perante tantos quantos creram.
—
Tens de outro um testemunho não duvidoso?
Arbítrio
girou o olhar e falou:
—
Lembro de um bom para contar.
Pôla,
mãos guardadas nos bolsos, verga-se devagar e engole a baba para não vazar da
boca já disposta a balbuciar suas dúvidas.
—
Teu ceticismo transparece sem pronunciares palavra – falou Castão com semblante
tristonho.
—
Ainda que talentoso o argumento, bem a voz calando, Pôla nem no amanhã se
encontrará diante da senda da esperança – sentenciou Infausto.
O
taciturno Trindade e a sincera Pureza pareciam querer chorar. Suspiraram
calando o pranto pronto para corromper sentimentos chocantes.
Almas
bondosas e desgostadas com a vetusta injustiça da vida debalde vivida.
Parece
que os feridos cuidados da paixão pelas almas sacudiram os sentimentos de Pôla,
pensou Arbítrio se animando a contar-lhe a história.
—
Certa vez Santelo conheceu um comerciante que se proclamava ateu. Materialista
e bem de posses ele tinha certezas confusas, pois freqüentava sessões
espíritas...
—
Materialista, mas não muito!
Pôla
manifestava anuência. Muitas noites e até em madrugadas manipulou seu gnomo.
—
O que o comerciante fazia? – perguntou Castão.
—
Tinha empresa de construção civil e sócio pouco fiel. Quando construía
outro salão de
cultos para uma igreja conheceu o congregado Santelo e contou-lhe que o
sócio o estava fraudando tanto que, fatalmente, perderia a sua parte na sociedade. Se tal acontecesse,
o mataria; nem mais nem menos, pois a sobrevivência da família dependia da
firma.
Pureza
desgostou-se diante da ostentosa violência.
Arbítrio
demorou para continuar. Parou, tossiu, percebeu a comoção e prosseguiu:
—
O homem tinha necessidade de dizer-lhe tudo e esperava conhecer melhor conselho
para se livrar do medo de “pirar”. Contou todos os seus cuidados a Santelo e
perguntou-lhe:
—
“O quê eu posso fazer?”
—
“Confiar” – foi a resposta.
—
“No quê?”
—
“No quê não.”
—
“Em quem?!...”
—
“Sim, em Cristo!” foi a palavra de poder
de Santelo. O comerciante queria
confiar, tão precisado estava de solução para o seu caso. Depois de dias e já
gozando boa disposição voltou a avistar-se com Santelo e lhe disse:
—
“Desafiei Jesus!”
—
“Qual o repto?”
—
“Falei-lhe: Te chamam Filho de Deus; se podes compadecer-te, prova-me
solucionando o problema que tenho.”
—
“Qual a resposta?”
—
“Silenciosa e real!”
—
“Ganhaste um Rei?”
—
“Sim, um Monarca bom e majestoso!”
Pôla
tinha colocado um chiclete na boca e Castão falou que o seu consumo não tinha
proveito. Só provocava ferida no estômago!
—
Quem gosta de bobagens verá jorrar os danos das gulodices descontroladas –
vaticinou Infausto.
Tirando
os pés do travessão de apoio da cadeira, mãos postas no assento e abaixo das
cochas, Pôla começou a sacudir as pernas curtas. Indiferente, punha os seus
olhos ora no pregador ora no profeta de tragédias. Ia preparando com a língua a
pasta do chiclete até se fazer uma película fina que prendeu aos lábios. Soprou
uma bola que foi aumentando até estourar. O chiclete se lhe pegou aos lábios e
nariz. Ela o lambeu e começou uma Mastigação barulhenta simbolizando o seu
desprezo total pela pregação e advertência dos dois. A seguir falou enfrentando
a feição pacífica de Arbítrio:
—
Desejas tornar-nos nativistas das tradições fenomenais; não duvido da tua
narrativa. Todavia tal notícia não faz parte do dia a dia dos denominados
discípulos de Jesus.
—
Argumentas com a realidade, mas não granjeias razão; quanto relatei, garanto. A
Graça não é remédio contumaz, ainda que se compraza no governo dos remidos por
Cristo.
Arbítrio
conservava o olhar sereno fixado na face de Póla, que se quedava calada.
—
Sob o sol se acham pântanos infestados por sucuris e prados cheios de flores;
tem também a fé dos fiéis que consterna o coração do Santo Pai a conservá-los
em portos seguros. Mas é na bondade de Deus que o justo alcança galardão,
bastando vigiar boa jornada que agrade o seu juízo, onde desponta o desejo de
ganhar viajores vindos da desventura, jornada de volta dos justificados por
Jesus.
—
Sem essa lealdade sujeitam-se à ruína? – zomba a relutante Pôla.
—
Não há diferença. Justos e injustos estão debaixo do juízo de Deus.
—
A desgraça vem de Deus? – pergunta Pureza, bisonha.
—
A verdade vem de Deus. A desgraça vem do homem, por deter a verdade em
injustiça, julgou um dia Santelo com base na Bíblia e diante de alguém que
jogou esse argumento.
—
Que confusão!
—
Compreende, Pôla – falou Arbítrio em seu socorro –, o conhecimento sem a fé
sustenta a falsidade.
—
Considero fanatismo pensar que o sujeito do conhecimento só será capaz de
proposições verdadeiras se tiver a tua fé – argumentou Pôla em testemunho da
sua capacidade filosófica.
—
Ponderando sobre a falsidade – falou Arbítrio sem se perturbar – a sua
preocupação é com o conseqüente sem considerar o antecedente. Se chamamos
verdadeira a coisa criada, fica sem sustento a ponderação da criação por um
poder passivo. Falsidade filosófica, portanto.
—
Podemos falsificar o processo criativo, Pôla? – perguntou Pureza
—
A falsidade troca confidências com a perdição quando pondera sobre o fato e
conclui que ele é cousa surgida sem causa produtora – acrescentou Infausto.
—
Deus não se agrada da dúvida do viandante...
—
Com farnel de boas obras, o breu da noite nos devolve à vida – interrompeu Pôla
a fala de Castão, cuspindo o chiclete na cesta de papel atrás de sua cadeira.
—
Lembro de um caso contado por Santelo...
Arbítrio
tinha os dedos trançados e anúncio no olhar ditoso.
—
Galdino, que trabalhava de engenheiro e tinha casa perto de uma paróquia, foi
visitado por Santelo já na virada da sua vida. Lia suas literaturas religiosas
na sala onde estavam misturadas publicações espíritas, mapas zodiacais, Bíblias
azuis, amarelas e pretas; pequenos boletins da paróquia, bandeiras místicas,
pés de coelhos, mantas de presbíteros. Santelo fez-se anunciar falando que
trazia convite para a família participar de uma importante cerimônia. Diante daquela
galeria de objetos no interior da casa –
coisas como a garantir a bem-aventurança de Deus – deparando-se com as
Bíblias pergunta:
—
“Crês na Bíblia?”
—
“Creio – garante Galdino e continua: —
“És religioso?”
—
“Sou pescador de homens, conheces a frase?’
Galdino
afunda na cadeira, receando o rumo da conversa.
—
“Crês que a Bíblia é a Palavra de Deus?”
—
“Não tenho nenhuma dúvida disso”.
—
“Crês em Jesus?” – seguiu perguntando o Santelo.
O
“creio” era pouco convincente.
—
“Quem é Jesus?” – Santelo queria saber qual o tipo de fé de Galdino em Cristo.
—
“Entre os espíritos luminares ele seria o sol.”
—
“Crês que Ele é o filho do Todo Poderoso?”
—
“Não.”
—
“A Palavra pode confirmar que sim.”
—
“Mostra-me, então” – desafia Galdino.
—
“Qual a Bíblia que eu posso usar?” – pergunta Santelo apontando para as que
estavam na prateleira próxima.
—
“Aquela ali” – aponta Galdino para uma delas.
—
“Essa é a única que não serve, e creio que
sabes disso.”
—
“Então escolhe a que quiseres.”
Santelo
estende a mão e pega a Bíblia editada pelos espíritas. Galdino sorri
sapientíssimo e acompanha a busca de Santelo na Bíblia até começar a ditar-lhe
a passagem:
—
“Tomé respondeu e disse-lhe: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me
viste, Tomé, creste?;...”
—
“Não terá Tomé exclamado para Deus numa tontura extática?”
Santelo
esperava por essa proclamação faltosa de fé. Procura outro texto, procura mais
outro...
Ao
fim de dez passagens despedem-se. A porta de saída do quintal Galdino diz:
—
“Agora só falta ouvir o que o pároco tem a falar.”
Lá
no final da rua Santelo olha à ré. Galdino faz-lhe um sinal. A mão parece
pequena no aceno indecifrável.
No grupo, alguns aguardavam um bom júbilo; desgosto
visível em Pureza e zanga jucunda em Pola.
—
Faz-me o favor de falar: qual das tuas falácias se pode considerar?
—
Olha aqui, ó Castão, caça na massa cefálica mórbida centelha de fé, pois quem
não tem querer, precisa crer.
—
Não duvidas do teu dito? – diz Arbítrio tristonho. – Tanto Deus nos deu; tudo
nos deixou! Dentro de nós ou não, de nosso nada temos. É tudo dele!
—
Jazer na grandeza duvidosa é considerar a basbaque direção visionária.
—
Pensas como tola; te cansas com a dança terreal. Com fé podias trocar o passo
dessa polca e dançar o balé do Criador.
—
Proponho o tema fraternidade! “Pondera, ó chato Castão, se tens projeto
superior para considerarmos”, pensou Pôla após a fala, querendo fazer conhecida
sua superioridade filosófica.
—
Qual a gnose?
Pôla
calou, gaguejou com a questão, gargarejou ruídos querendo contestar o
gongorismo.(*)
—
É o ganho religioso que te contenta! - completou Castão rumorejante.
—
Vamos debater governados do bom juízo? disse Arbítrio aos dois zangados.
—
Como ponderar sobre a fraternidade? Se a chamamos de sentimento fiel temos de
conceituar a fidelidade.
—
O que é ser fiel, Castão? – pergunta Pôla.
—
Diria isso de um dom governo verdadeiro.
—
Mente: é boa probabilidade?
—
Materialmente pode mostrar-se boa. Mas precisa de bondade para o bem produzir.
—
E Bondade é virtude divina – garante Arbítrio –. Em gente vil bondade vem e
vai. Virtude é gestão vencedora de Deus.
—
Subjugastes fraternidade aos predicados supremos e fostes perspicaz – pondera
Póla –. E igualdade, podemos tê-la com o Supremo?
—
Esse tema seduz, sibila Pureza.
—
O Todo-Poderoso nos fez do pó. Contudo, pode tudo o Senhor e chamou-nos para Si
pelo Filho querido, que é tal qual somos.
—
Falas sobre o Cristo?
—
Sim, Jesus fez-se homem e salvou-nos da vil separação.
“A
Pôla muda para a banda bendita?”, pondera Pureza.
“Deixa-se
nascer de novo!”, não titubeia o Trindade.
“Vê,
afinal, a justiça !”, julga Infausto, visivelmente feliz.
—
Cristo te salva e te faz filha do Pai! – exclama Castão querendo persuadir a
titubeante Pôla.
Tudo
isso pensam e falam num dia que se chama: hoje! Passado histórico imperando sem
se tornar impositivo.
“Querem
retê-la no redil.”
“Rogam
ganhá-la para Cristo.”
Pôla
rola os olhos. Pondera a fé em
todos. Sente claudicar o pulsar do compromisso e fecha-se na
ponderação das possibilidades tantas que chamam de fé.
—
Se restringe a liberdade? Sob a realeza zenital estarei subjugada?
—
Liberdade zanga com a realidade se levares a sério o zanzar desta lida.
—
Jorra do jacá de Deus?
—
O Senhor a tem em si, pois é o Todo-Poderoso. Tú podes tudo ó Pôla?
—
A Bíblia diz: “Deus é espírito”. Na jeira* de Deus o governo é dos espíritos.
—
Voltas ao gnosticismo espiritualista.
—
É gnose comprovada – garante Pôla.
—
Te sustentaste na Palavra e agora foges tentando as fracas possibilidades
kardecistas. Se crês em tudo, te faltarão convicções. Falar pela Palavra é
suficiente.
Arbítrio levava a rixa pelas rédeas da lealdade. Sozinho,
o zelo do seu Rei se impunha. Calavam-se os demais percebendo a tutelar
garantia da Palavra de Deus, pois ele botava boca afora os conselhos da Bíblia.
—
Por que temeria eu se falhassem as promessas do Todo-Poderoso conforme as tenho
na Sua Palavra e estivesses tú certa? — Conforme os kardecistas eu tornaria a ser.
—
Contudo, se falharem os kardecistas e forem certas as palavras do testemunho
dos profetas, que possibilidade terás de ser chamada ao céu, se para o além
partires sem Cristo?
Pôla
parecia gelada, pois tinha as bochechas desbotadas. Arbítrio dirigiu-lhe um
gesto bondoso, como a dizer-lhe: queda-te confiante. Depois continuou:
—
Falaste: “Com farnel de boas obras, o breu da noite nos devolve à vida”. Julga
bem: Deixará Deus dois espíritos vivendo na vileza* e vasculhando a jeira Dele?
“Mostra-se
minguado o bom senso de Pôla” ? pondera a bondosa Pureza.
“Debate-se
na dúvida”? – deduz Trindade.
“Sente-se reprovada diante das
zelosas sutilezas daquele seguidor do Senhor? –
reflete Infausto.
Cabisbaixa,
Pôla sacode as pernas.
— Quantas
tolices tenho pensado sobre tudo quanto pedes para pronunciar-me. Presentemente
posso calcular que tudo quanto eu cria era falso. Quero a Cristo tanto quanto
tenho percebido ser o querer de todos os chamados seus.
Assim, lindo
mundo mostrou um novo amanhã conquistado por Pôla.
*gongorismo
- excesso de metáforas, antíteses e anástrofes
*jeira -
A extensão de terreno que uma junta de bois pode arar num dia
*vileza -
que vive numa vida
terça-feira, 2 de abril de 2013
O Pantaneiro
“Mais perdido que tatu na queimada”
Tatu é bicho parcimonioso de presença, maior parte dos solstícios.
Tem duas moradias. Uma, presente da natureza e que, precavido, carrega no lombo.
È preta, quase luzidia, um fole com anéis transversos. Quando corre, nosso vivente tem a direção de fuga denunciada pelo “zum zum” desses anéis queratinosos. A outra casa, produto de seu labor, fica quase sempre em pequenos monchões, sombreados por presenças arbustivas e arbóreas, “caponetes”, diz o nativo. Ou ainda, na órlea de caapões e cordilheiras, de onde sai para as vazantes em atenta e laboriosa busca de sustento. Na cheias normais, sua loca está a salvo das águas. Nela, convive com jararacas e bocas-de-sapo.
“Tatu-prêto”, “tatu galinha”: sua denominação trai sua cor e a semelhança do sabor de sua carne com a de nossos conhecidos galináceos. Parece que o grande recurso de sobrevida de nosso simpático vivente seja o faro: é com o nariz que sonda a aproximação intrusa, suspeitosa, de qualquer que o seja.
Chegando maio, junho, é época de tatu festar. Desentoca, anda, fareja, enlota, reproduz. Peão, volta e meia, acerta o cabo do piraín, relho, ou guacha na cabeça de um e leva a iguaria para a casa. Ruína de um, festa de outro. Coisa do mundo.
Mas não há mal que sempre dure e bem que não se acabe. Agosto chega e, com ele, encosta a sequidão na grande Planície Pantaneira. Volumosos, fartos, o sapé, o fura bucho, o “capim carona” que guarda óleo em suas securas, são combustíveis de primeira. Na esteira da estiagem, crepita o fogo, que estende seu ardente manto vermelho sobre o marrom da sequidão extensa. Quanto mais seco e alto o capim, maior o incêndio. O Gavião Fumaça surge, faceiro, estridente, campeando por dentre os rolos de fumaça, pequenos roedores e cobras, sapecados pelo fogo. Se crú é bom, que dirá assado. Rápido, tudo cessa, restando a fumaça, que desaparece em dias, enquanto o verde ressurge, pois as labaredas acordam as sementes do Cerrado.
Por dentre o campo limpo, entre cinzas, comendo raízes cozidas, perambula o tatu. Mas, seu esperto anda-pára-farejante, está rengo. A fumaça lhe oblitera as narinas, e nosso vivente diminui sua habilidade de fuga. Ao suspeitar de qualquer intruso, ou pressentir ameaça, fica em pé, farejando, olhinhos miúdos, deficientes, com as mãos erguidas, próximas ao pescoço. Nessa circunstância, presa fácil do que quer que seja. Peão faz leitura: perdido, bobo, até reza antes de morrer.
Por isso se diz, em prosa de galpão, quando alguém perde o rumo, prumo, o padrinho ou o estribo: “tá mais perdido que tatu na queimada”.
Valfrido Medeiros Chaves –Pantaneiro, Psicanalista
15.01.2003
Fazemos votos que o Valfrido, nosso grande amigo, intelectual e colaborador desde 1992 continue a postar suas crônicas e/ou artigos em nosso blog
Saludos, amigo Valcfrido.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
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